Tretas e Cenas

Tretas e Cenas


Onde escrevo as minhas tretas. Tão depressa estou a escrever sobre algo poético como a seguir escrevo só para não me esquecer.

Outubro 2014
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Agora estamos todos

Pedro FonsecaPedro Fonseca

Olá Filhota,

O dia do teu nascimento chegou, é hoje. A tua mãe está calma, afinal já é experiente nestas coisas. As malas com a roupa, tuas e da tua mãe já estão no carro, a bateria da máquina fotográfica está carregada, só falta mesmo tomar o pequeno almoço. Estamos a comer torradas e alguém está a tocar à porta, questiono-me quem será. É a tua tia Lena, veio dar um beijo de boa sorte à tua mãe.

O teu irmão veio ter comigo enquanto a tua mãe, tia e avó bia estão à conversa. Vamos ver uma livestream de um jogo que está na moda, Destiny. O teu irmão já se fartou, vai jogar um pouco de consola, eu aqui estou a  fazer tempo até que a tua mãe diga para irmos.

É agora, beijinhos de despedida e o teu irmão já chora, coitadinho. Não sei porque chora, deve ser porque vai ficar sem a mãe por uns dias. O dia está com sol, devem estar uns 20 graus, não está vento. São 8:37 e não existe trânsito nenhum, depressa chegamos ao sítio onde vais nascer, já arranjar estacionamento é que está complicado mas lá se arrumou o carro.

Estamos a dar entrada e a preencher a papelada que estas coisas exigem, fomos os primeiros a chegar aqui e depressa ficamos despachados. Já estou a chamar o elevador, vamos para o terceiro piso, aqui será o quarto onde vais dormir pela primeira vez. A tua mãe já se despe e está a por uma bata toda gira. Pronto, agora já te oiço o coração, chamam a isto um CTG.  Estás agitada mas a tua mãe está muito calma, o teu irmão devia estar a estudar porque tem teste para a semana mas está a ver televisão, é isso que preocupa a tua mãe agora.

Entrou agora o médico que te vai ajudar a sair, Dr José Cunha. Um homem muito peculiar e engraçado que trata as senhoras por princesas, gosto dele. Diz que vai fazer o toque à tua mãe para ver se está tudo bem, afirma que o colo do útero está mole o que é bom sinal. A tua mãe não está a gostar muito, está super vermelha e com uma cara de sofrimento. Deve doer e não deve ser pouco. Já está. Já tem lá dentro uns pozinhos mágicos que o Dr colocou, agora é esperar cerca de duas horas para começar a fazer efeito.

São 13:00 e o Dr pediu para ministrar mais uns pozinhos mas desta vez em formato de comprimido, a tua mãe lá pôs na boca. Vamos ver se faz efeito, a tua mãe já tem contracções mas não aparece nada no monitor do CTG, acho que isto está estragado. A tua mãe lá se vai queixando mas por enquanto é suportável.

São 14:30, agora é que é, a tua mãe está com contracções e que estão a custar cada vez mais, ela já só pede que eu a ajude, mas sinto-me impotente, não posso fazer nada. Resta-me dar a mão com imensa força, dizer para ter calma e ir trabalhando com ela na respiração. Vejo o desespero nos olhos da tua mãe, está a sofrer imenso. Estamos à espera que chegue a anestesista, já foi chamada mas ainda não chegou. A tua mãe está com 3 dedos de dilatação.

Finalmente chegou a senhora que tira as dores com uma injecção que se chama de epidural, a tua mãe está de rastos, as dores são imensas e cada vez mais fortes. Ela só pede ajuda, estou com imensa pena dela, não posso fazer nada. Agora chegou a parte mais complicada, a tua mãe está a sentar-se “à chinês” e com as costas direitas, vai ser administrada a injecção. Passaram três grandes contracções e a tua mãe aguentou lindamente, que mulher. Via-se que estava a sofrer mas não quebrou. Aos poucos as dores começam a passar, é feito novamente a medição e já tem 9 dedos de dilatação, está na hora de ir para o bloco.

Já me agrada ver a tua mãe, ficou bem mais calma, de tal forma que até me pergunta onde está a máquina fotográfica e para não me esquecer, à valente, assim é que é. Fico à porta do bloco, todo equipado com uma roupa janota especial para estas ocasiões, a mama está lá dentro a ser preparada. Sou chamado para entrar e que aparato, dizem-me para não tocar em nada que é verde e para me colocar lá num canto. A tua mãe já faz força, as enfermeiras a ajudar, não está fácil, vejo a tua mãe a ficar roxa a cada tentativa de força que faz. O ambiente é calmo mas de tensão, tu estás com a pulsação normal mas quando a tua mãe faz força tu abrandas o ritmo cardíaco. Mais uma tentativa, não está a resultar, o Dr decide usar ventosa. Mais uma força e, chegaste.

Olá Filha,

Choraste assim que te limparam as vias respiratórias, não levaste palmadas, tu trataste de chorar sozinha. Depois de te limparem e pesarem (2.370kg), lá te vestiram. Estás tão sossegada, fantástico. A tua mãe já está preocupada com a roupa que vais vestir, acha que o que comprou está enorme. Eu não quis dizer nada, mas eu avisei que era mais fácil se comprar quando tu nascesses. Enquanto estavas a ser tratada, a mãe também estava a receber tratamento, teve de levar uns micro pontos, nada demais.

Já estão as duas princesas no quarto, chegou a hora de ir buscar o teu irmão para te ver. Sabes, o teu irmão ainda é novo mas desatou a chorar quando te viu, é um querido. Mamaste 20 minutos em cada mama, pegas tão bem no peito da mãe, espero que seja assim por muito tempo. Olha, vem ali a senhora enfermeira, acho que te vai picar o pé. Segundo ela os bebés que acabam de nascer e mamam peito têm de ser picados de três em três horas para ver se o valor do açúcar no sangue está bem, tu tens 60 e o mínimo aceitável é 40. Boa filhota.

A tua mãe já parece outra pessoa, está bem melhor e com uma cara mais alegre. O pai mandou mensagem a todos os amigos e familiares, a malta mandou cumprimentos e já te querem vir ver amanhã. Agora estás a dormir, mas já espirraste quatro vezes, deve ser o teu organismo a reagir ao meio ambiente. Estás tão sossegada. A tua mãe já jantou, vê-se que está bem melhor. Que heroína que foi a tua mãe, já é a segunda vez que vejo isto e devo dizer que se fossemos nós homens a ter a responsabilidade de dar à luz, a humanidade acabava. As mulheres são mesmo fantásticas, tu vais ser fantástica.

Está na hora de ir embora, não me apetece, quero ficar ao pé de ti, mas não posso. Uma beijoca muito grande minha filha, agora fazes parte da minha vida e lembra-te que te amo imenso. Até amanha.

Sandrinha,

Já estamos todos na família Fonseca, posso dizer que a partir de agora é que a vida começa a fazer sentido? Obrigado meu amor pelo teu esforço, tu és fantástica, és mulher. Amo-te.

Sou licenciado em Sistemas de informação na Universidade Lusófona, gosto de tecnologia, programação, desportos radicais, bicicletas e motas. Adoro o Sistema Android e começo a gostar de Linux. E ainda tenho a mania que sei cozinhar.

Comentários 6
  • francisco pinto
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    francisco pinto francisco pinto

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    Antes de mais muitos parabéns 🙂 desejo muitas felicidades para ti e para tua família 🙂

    O texto está fantástico 🙂
    Parabéns e felicidades


  • Mafalda André
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    Mafalda André Mafalda André

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    Porra Fonseca, a fazer-me chorar a esta hora não vale…. Mais uma vez desejo muitos parabéns, muitas felicidades e a cima de tudo muita saúde na vida… É um obrigado por admitires que se o trabalho de parto não fosse nosso, das mulheres, seria um adeus humanidade!!!! Beijos


    • Pedro Fonseca
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      Pedro Fonseca Pedro Fonseca

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      Obrigado Mafalda. Realmente vocês são uma força da natureza, realmente fantásticas.


  • Filipe Dias
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    Filipe Dias Filipe Dias

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    Parabéns Fonseca, por mais este rebento (a Maria, pelo que vi das tags :P). Votos de muitas felicidades, para a pequena e para os pais também 😉


  • Filipe Dias
    Posted on

    Filipe Dias Filipe Dias

    Responder Autor

    PS: sabes, já tinha, há muito, pensado que quando fossem os meus também queria fazer uma coisa destas, hoje confirmaste os meus pensamentos. Fica divinal!
    Vais ver, daqui a 10 anos, quando ela souber ler, e lhe mostrares isto, vai ficar tão surpreendida. 😉


    • Pedro Fonseca
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      Pedro Fonseca Pedro Fonseca

      Responder Autor

      Este tipo de crónica serve dois propósitos, para recordar mais tarde e para informar todos os familiares e amigos o que se passou no dia.

      Assim evita-se contar a mesma coisa um milhão de vezes.