Tretas e Cenas

Tretas e Cenas


Onde escrevo as minhas tretas. Tão depressa estou a escrever sobre algo poético como a seguir escrevo só para não me esquecer.

Novembro 2013
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Pão por Deus

Pedro FonsecaPedro Fonseca

Depois de ler este artigo do António Pedro Neves, tinha de escrever umas palavras, aqui vai.

Vamos recuar 25 anos.

Acordo cedíssimo, é feriado e está na hora de partir à busca de doces em casas alheias. É dia de Pão por Deus, não sei o significado deste dia, apenas sei que tenho de sair à rua, tocar nas campainhas e dizer em alta voz: “Pão por Deus”, esperar alguns segundos e abrir o saco. No fim agradecer o que tiverem dado e ficar com sorriso de orelha a orelha.

Depois é só repetir o processo até à exaustão ou até ter o saco cheio. Antes de iniciar este ritual, tenho de ir chamar os amigos, subo a rua e chamo o Luís, o Ricardo e mais alguém que apareça no caminho. O Luís diz que temos de ir ao pé da escola, é que o homem que lá mora costuma dar bolas de ténis e ele queria ter uma, eu só digo que temos de passar ao pé da Radio Clube de Cascais porque a senhora que mora em frente, dizem, que dá dinheiro e se tiver sorte e me calhar algum dinheiro já estou a pensar em passar no super-mercado do Sr. Ramos e com aquele ar de quem é dono do mundo, sacar das moedas de vinte e cinco escudos e dizer: “É isto tudo em rebuçados“. Já estou a imaginar o bem que me vai fazer ao ego dizer isto em frente a toda a gente que por lá anda, vou ser o rei do mundo, o rei dos doces.

Partimos e começamos a odisseia, andamos literalmente quilómetros sem nunca nos queixarmos, a recompensa vai ser grande, pensamos. Eis que se ouve a sirene dos bombeiros, é meio-dia, como os trabalhadores que param para almoçar, nós paramos a nossa aventura e decidimos, ali mesmo, avaliar o produto de tanto trabalho.

Olhamos para o saco e dizemos uns para os outros, não foi mau, eu penso que podia ter recebido mais alguns trocos, afinal quero ir ao super do Sr Ramos. Já em casa começo por experimentar tudo o que trago no saco e depressa percebo que adoro todo este ritual, é mágico, sinto-me feliz e quero que este momento nunca acabe e nem me passa pela ideia que um dia tudo isto vai acabar.

Voltemos ao dia de hoje.

É verdade, acabou o ritual, sinto um aperto no coração quando penso nesses dias e como me fez bem. Não consigo conceber o dia de hoje sem o mágico Pão por Deus, o meu filho não vai ter estas recordações, o meu filho não vai saber o que é este sentimento, o meu filho não vai ter aquele ar imponente e dizer a frase mítica. Custa-me imenso que estejamos a perder a identidade por causa de razões económicas, é triste.

Mas serei o único a pensar assim? Estarei eu a chegar à idade em que nos tornamos “velhos do Restelo”? Será a idade e a experiência a mostrar que afinal a vida tem destas coisas e só temos de nos aguentar e não ligar? Quero acreditar que todos se sentem assim, pelo menos os da minha geração, quero acreditar que estamos fartos que nos destruam a identidade, queremos que os nossos filhos tenham as mesmas recordações e que daqui a 25 anos digam com saudade: “No meu tempo é que era”.

 

Sou licenciado em Sistemas de informação na Universidade Lusófona, gosto de tecnologia, programação, desportos radicais, bicicletas e motas. Adoro o Sistema Android e começo a gostar de Linux. E ainda tenho a mania que sei cozinhar.

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